quarta-feira, 15 de abril de 2015

Surpresas antes de partir

Era para ser um começo de semana normal, daqueles que carregam consigo o peso dos afazeres domésticos e profissionais, misturados às doces lembranças de um domingo agradável.
Era para ser uma típica segunda-feira: temos sono, trabalhamos, voltamos à dieta, retomamos a rotina de exercícios e chegamos em casa sozinhos e cansados, prontos para capotar na cama.
Entretanto, você ligou. Olhei para o celular tocando e não contive o frio na barriga que, subitamente, tomou conta do meu corpo inteiro. Eu lembrava bem da última vez em que havíamos nos falado. Já fazia tempo... Trocamos algumas farpas e, depois, você sumiu, me deixando, como sempre, no limbo das perguntas sem respostas.

- Alô?
- Você está indo embora. Acho que merecemos uma conversa franca, sem whatsapp, sem telefone. A gente precisa é se ver.

Uau. Por essa, eu não esperava. Pense num medo de te encontrar de novo e de reabrir uma ferida que já estava em fase final de cicatrização... Todavia, me restavam apenas 3 dias. Era a última chance de escutar qualquer palavra tua que fizesse um mínimo de sentido.

- OK. Podemos conversar.
- Te encontro daqui a pouco.

Que agonia essa espera! Daqui a pouco é o quê? Daqui a meia hora? Duas horas? Estou bonita? Pareço tranquila e bem resolvida? Pareço confusa? Meu Deus, eu esqueci de pentear o cabelo, será que dá tempo de... campainha toca.

- Oi...
- É a última vez que vejo esta cena?
- Qual cena?
- Você, como sempre, atrasada. Penteando o cabelo. E, se eu bem me recordo, esta é a hora em que você diz: "Me dá um minutinho? Eu vou só secar a franja."
- Bem, já que você está tão familiarizado com os procedimentos, me dá uma licencinha, que eu seco a franja rapidinho.

Cabelo arrumado. Volto à sala. Você, sem rodeios:
- Eu estive pensando na gente. Em como estaríamos hoje, caso tivéssemos nos dado uma chance de dar certo.
- Mas EU dei essa chance. Eu queria que déssemos certo. Mas, por qualquer razão que foge da minha compreensão, você se esquivava justamente quando estava tudo bem.
- Lara, eu sempre tive muito, MUITO medo de me ferrar contigo.
- Oi!?
- Desculpa. Mas eu sempre imaginei que, muito em breve, você iria embora. Você é muito independente e isso me assustou. A qualquer momento, uma oportunidade iria surgir. E eu sempre soube que você aceitaria. E eu ficaria aqui, ferrado.
- Então você se sentia inseguro comigo? E preferiu não se envolver por causa disso?
- Sim.
- Agora, eu estou mesmo indo embora. E você não se deixou envolver. Como se sente? Aliviado? 
- Me sinto na merda.
- Então, não valeu a pena a sua tentativa de se proteger. No final, machucou do mesmo jeito.
- Eu sei. Eu fui um otário. Me desculpe.

Eu não contive as lágrimas. Deixei que jorrassem livremente, como se compensassem, ao menos, um pedacinho da dor que eu sentia naquele momento. Teus olhos estavam assustados, presenciando, pela primeira vez, uma evidência clara da ferida que você mesmo havia aberto em mim.

- Não sei se percebia o quanto eu gostava de você. Era muito. Era o meu carinho em sua forma mais doce. Eu zelei por nós dois. Tentei, de verdade, nos manter vivos. Mas você, simplesmente, parecia não gostar de mim, então eu desisti.
- Eu gosto muito. Mais do que você imagina. Mas tive medo. E não soube como agir quando vi que estava te perdendo. Percebi que você estava distante. Te procurei, ainda. Mas você estava fria...
- Eu conheci alguém. Ele é um cara incrível.

Você ficou pálido. Eu já nem sabia mais decifrar teus olhos.

Não havia resposta que se encaixasse. Preferimos responder com um abraço. Sincero, terno, repleto de comunicação nas entrelinhas.

Se abraços falassem, o nosso diria que, agora, está tudo bem. Que ambos estão perdoados pelo dito e o não dito, pelo feito e o não feito. Que as farpas foram retiradas e o que restava era tudo que foi lindo. E que, enquanto houvesse carinho e querer-bem, a história de nós dois estaria viva, repleta de belas memórias, pairando sobre algum ponto mágico entre Recife e Rio de Janeiro.




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